4 de fevereiro de 2013

Filetes de Polvo e as memórias dos Natais passados



Tem chovido durante uma semana inteira, de manhã, de tarde e à noite. 


Aquela chuva fininha que mantém tudo molhado e que ajuda o verde da paisagem a entrar nas pedras que constroem os muros e as casas dos homens. O frio escorre no interior dos vidros.

A alma é aquecida na cozinha, sempre na cozinha, com todas as conversas começadas e a maior parte delas inacabadas. É intenso. Nunca há tempo para tanto assunto.

É sempre assim no norte. Hoje, o assunto são os filetes da Celeste, seguramente tão bons como os da casa Aleixo - aquele restaurante dos filetes - sim perto da Campanhã.

Vamos aos filetes da Celeste outra vez, este Natal. No meio de tantas mãos alguma coisa há-de sair.

Eu quero mais uma pinga de Alvarinho. Podes encher.



Nesta altura ouço as observações bem humoradas da minha mãe sobre qualquer coisa relativa aos miúdos também fazerem os filetes. Ok, eu frito-os.


Ingredientes:


  • 1 polvo congelado
  • sumo de 1 limão
  • 1 ovo
  • pão ralado
  • palitos de madeira

Como se fazem:
  1. coloca-se o polvo ainda congelado a cozer na panela de pressão com água e 1 copo de vinho tinto; reserva-se o caldo da cozedura;
  2. limpa-se cada um dos tentáculos de peles soltas, ventosas e pontas finas (<1cm de diâmetro, que se reservam para enriquecer um arroz);
  3. cada tentáculo é cortado em troços de igual tamanho que posteriormente se abrem longitudinalmente de forma a ficar com dois semi-cilindros, unindo-se estes, lado a lado, com a ajuda dos palitos;
  4. temperam-se com o sumo de limão e um pouco de pimenta e reservam-se durante  30 minutos;
  5. cada filete é passado pelo pão ralado e ovo batido pelo menos 2 vezes;
  6. fritam-se em azeite quente e escorrem-se em papel de cozinha para limpar o máximo de gordura;
  7. à água da cozedura junta-se as pontas finas das pernas dos polvo, a cabeça bem limpa e partida às tirinhas e as ventosas, que serão usados para fazer um arroz de grelos, para acompanhamento dos filetes.

Os nossos encontros familiares obrigatórios são sempre neste tempo, ora no sul, ora no norte. 
Sempre na cozinha. 
A gaveta dos utensílios igual em todas as cozinhas. 
A gaveta dos panos. A gaveta dos talheres. O armário dos copos. O armário dos pratos. Os pratos da sala. Os pratos dos doces, das azevias, dos sonhos, do bolo podre alentejano, do arroz-doce e o alguidarinho dos borrachos. O armário da travessas. Os panos de renda e os de algodão, com as pontilhas e os entremeios. Os sacos-de-guardanapos todos em renda cada um diferente do outro, todos arrumados direitinhos, numa cesta amarela de plástico, no poial do lado direito do lume de chão. Os pratos grandes todos empinados junto à parede. As panelas tapadas penduradas nas pianhas. A mesa enorme e os bancos corridos. onde cada um tinha o seu lugar. Os homens do lado oposto das crianças, que éramos nós. A tia Maruja, pouco ativa nas lides mas muito nos contos. Já me baralhei. Juntei peças de outro tempo que não era daqui.

Tudo tão igual. Tudo cúmplice. Tudo feito com a mesma ansiedade e rito. As mesmas emoções.
Hoje somos os guardiões do templo.

Felizes reencontros, onde quer que vocês estejam.
Ass: A filha, A neta, A sobrinha, A irmã, A prima


Mom

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